Não é o que a dança pode fazer por você, mas o que você vai fazer com o que ela pode fazer com você.
Há muito tempo ouvimos sobre tudo o que a dança pode nos oferecer: mais consciência corporal, melhora física, bem-estar, felicidade. Existe quase uma promessa e, em parte, ela é real, mas tem uma pergunta que fica esquecida no meio disso tudo: o que você faz com essa experiência?
A dança, por si só, não transforma ninguém. Ela abre caminhos e caminhos se abrem para quem se permite. Se você não se permite, se não se envolve, se não passa pela experiência com toda a sua verdade, ela pode virar só mais uma atividade. Bonita, prazerosa, mas superficial.
Quando você se coloca na dança, aí sim algo muda.
E não estou falando só de técnica ou desempenho. A dança atua em camadas mais sutis e, ao mesmo tempo, muito concretas: coordenação motora (inclusive no adulto), memória corporal, percepção, relação com o espaço, com o outro, consigo. A memória do corpo, por exemplo, é uma chave poderosa. O corpo aprende, registra e reorganiza padrões, e isso a gente carrega para a vida.
Mas talvez o ponto mais importante, pra mim, seja outro:
A dança como espaço de auto expressão, não importa o estilo ou a técnica, não importa se você é artista ou não, mas o que você vai conseguir tirar de dentro de você para mostrar fora.
Estudos como os de Wilhelm Reich já apontavam a relação profunda entre corpo e psique. Reich observou que nossos padrões emocionais se manifestam no corpo em tensões, bloqueios, posturas… e que, ao modificar esses padrões corporais, também acessamos mudanças nos nossos estados internos.
Ou seja, não é só “expressar o que sente”, é também reorganizar como se sente.
E sim, a dança pode ser um caminho pra isso, mas ela não faz isso sozinha: Ela precisa da sua presença, da sua disponibilidade, da sua coragem de atravessar o desconforto, de sustentar o processo, de ir além do automático.
No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja “o que a dança pode fazer por mim?”,mas o que eu estou disposto a fazer com aquilo que a dança desperta em mim?
